Considerações psicossomáticas da Asma Bronquica






Quando é solicitada a opinião de um psicanalista, numa reunião médica como esta, essa solicitação obedece à suposição prévia de que a psicanálise está capacitada para trazer alguma contribuição esclarecedora referente à etiologia, à patogenia e, conseqüentemente, à terapêutica da doença que se estuda. No que diz respeito à asma brônquica, a literatura psicanalítica não é grande, mas existem alguns trabalhos fundamentais acerca dos fatores psicogênicos dessa doença, destacando-se sobremodo a monografia de Thomaz French e Franz Alexander.

Todos nós sofremos de uma certa deformação profissional, deformação essa que se deve ao princípio econômico do psiquismo. A tendência a poupar energia mental nos leva automaticamente a adotar as posições teóricas mais cômodas, com sérios prejuízos da compreensão das dimensões reais dos fenômenos. Para defender a nossa posição, usamos freqüentemente de uma dialética artificial. Pois bem, é esse tipo de dialética que eu quero evitar aqui, a fim de expor com clareza e de forma sintética a concepção psicossomática da asma brônquica.

Todos sabem que o termo psicossimático permanece em pauta porque foi consagrado pelo uso, mas que é impróprio porque implica num certo perspectivismo dualista. Nesse sentido, a concepção médica clássica, a velha noção do terreno, é mais ampla. Seja como for, não estamos aqui para modificar a terminologia médica. Portanto, vejamos logo, sem mais, "a priori", qual o conteúdo significativo dos ataques de asma e da asma brônquica, considerada por alguns como afecção psicossomática típica.

Como sempre, Hipócrates foi o primeiro a estabelecer relações entre as situações emocionais e o ataque de asma. Séculos depois, uma outra grande figura da história da Medicina, Thomaz Willis, em 1682, ressaltou também a mesma incidência. Entretanto, não foi obra fácil precisar os fatores psicogênicos da asma brônquica. Somente nos últimos decênios, graças ao método psicanalítico, tornou-se possível superar essas dificuldades e fixar algumas formulações teóricas, que se mantém como marcos referenciais da pesquisa.

Os trabalhos psicanalíticos, nesse campo, começaram em 1910 e os casos mais lembrados na literatura são os de Sadger, van Stegman, Marcinowsky, Wulff, Weiss, Oberndorf.

Outros procedimentos, não propriamente analíticos, foram tentados e, ao que parece, com resultados satisfatórios, destacando-se as observações de Rogerson, Harscastle e Duguid, do Guy's Hospital de Londres. Mas a obra que continua sendo atual e fundamental sobre o tema é a monografia de Thomaz French e Franz Alexander, de tal forma que ninguém que se aproxime deste assunto em busca do pensamento psicanalítico sobre ele, poderá deixar de consultá-la, não obstante os progressos posteriores da investigação psicológica profunda, sobretudo no que respeita às etapas primitivas do desenvolvimento psicossexual.

Segundo esses autores, as situações precipitantes de ataques de asma se relacionam com emoções súbitas intensas, com choro convulso, com, conflitos sexuais, com perturbações na relação de dependência, com desgraças de parentes próximos, com a identificação com ataques dispnéicos de outras pessoas e, finalmente, com a utilização dos ataques para fins de benefícios secundários.

Anteriormente à investigação de French e Alexander, outros dois psicanalistas de renome, Federn e Weiss, perquirindo as associações profundas existentes entre as situações emocionais e os ataques de asma, haviam chegado à conclusão de que o ataque asmático constitui, na criança, perpetuando-se no inconsciente do adulto, uma reação ao perigo que representa a separação da mãe ou à perda real do amor materno. Diversos psicanalistas do Instituto de Psicanálise de Chicago confirmaram essa impressão.

Sumamente valioso é o estudo de French sobre as defesas de ordem emocional, características dos períodos livres de asma. Entre essas defesas, French assinala, principalmente, a tendência da criança a buscar uma reconciliação com a mãe por meio da confissão de qualquer conduta, particularmente as eróticas, que imagina atentatória ao ligame materno-filial. Aponta também, como defesa, o desejo de dominar um acontecimento traumático, que foi experimentado passivamente, mediante a repetição ativa do mesmo. Por último, ressalta os intentos realizados pelo paciente para se afastar de toda situação conflituosa, procurando substituições impessoais ou auto-eróticas.

Por certo, na consideração da casualidade do ataque asmático, os psicanalistas não menosprezam a relação dos fatores alérgicos e emocionais, preocupando-se, dentro dos seus limites, com os mecanismos fisiológicos que incidem na produção do ataque.

O que parece inegável, a esta altura da Medicina contemporânea, é que a investigação psicanalítica trouxe uma contribuição fundamental para a interpretação da incidência psicogenética nos problemas orgânicos da asma brônquica. Por outro lado, não há dúvida de que os fenômenos agudos da asma, que obedecem a mecanismos de ação no plano orgânico expressados fisiologicamente, terão de continuar como até agora, sob a proteção do atendimento clínico-medicamentoso. Mas a parte da totalidade que se expressa no nível psíquico é passível de tratamento psicanalítico, conforme a opinião de autores experimentados.

Em síntese, a emoção central em foco, na asma, reside num intenso anelo de amor, basicamente pelo amor materno. Daí concluírem alguns que um forte desejo de amor insatisfeito e reprimido afeta a sensibilidade alérgica do indivíduo. Em tais casos, quando ocorre que esse anelo é intensificado, e ao mesmo tempo frustrado, ou simplesmente recordado por situações similares da vida adulta, a sensibilidade alérgica aumenta e o sintoma aparece.

Tomando como fundamento tal raciocínio, assinalam-se os seguintes fatores específicos determinantes do ataque de asma infantil: 1) interrupção brusca da união com a mãe; 2) a repressão da conseqüente tendência a chorar.

No material de adultos asmáticos em análise sobressai a fantasia inconsciente, que se traduz em sonhos, de regressão intrauterina. O desejo oculto que transparece da interpretação de tais sonhos, é o da posse exclusiva da mãe, sob uma forma de dependência extrema. Por outro lado, o estudo detido e detalhado da constelação familiar de tais doentes descobre muitas vezes a que a mãe foi uma pessoa rechaçante em relação ao filho e que, seguramente, ele sofreu inúmeras experiências traumáticas por haver recebido rudes rechaços, em vez de socorro imediato e terno, quando gritava clamando pela ajuda materna.

Para evitar a repetição dessas experiências dolorosas, tais crianças teriam desenvolvido a tendência a refrear o chamado à mãe, contendo o grito solicitante de ajuda. Daí o dizer-se que o ataque de asma é um "grito inibido".

Em certas histórias clínicas de asmáticos, ficou bem claro que a mãe e às vezes ambos os pais foram demasiado exigentes com seus filhos, forçando-os exageradamente a uma precoce independência.

Tais crianças atingem, dessa forma, uma independência artificial, que está muito acima de seus recursos emocionais. Essa maneira de viver faz aumentar o desejo de segurança e de apoio por parte da mãe. Como estão proibidos de dar evasão a esse desejo, o desejo aumenta. E toda vez que é mobilizado, em situações conflituosas agudas, encontra expressão num determinado sintoma neurótico, como, no caso,  o ataque de asma.

Nalguns casos, a situação é ainda mais dramática para a criança. A mãe é rechaçante e ao mesmo tempo exige a independência precoce do filho.

Diante disto, pode-se compreender bem porque teriam dito French e Alexander que um dos traços marcantes da personalidade do asmático é ambivalência.

Ainda sobre a psicologia do asmático convém ressaltar o quanto é comum nesses indivíduos a tendência a obter amor ajudando e dando aos outros. Identificam-se projetivamente com esses outros. Dessa maneira, garantem a própria necessidade de amor e segurança pelo ato de ajudar a alguém na forma em que desejariam ser ajudados e amados. Outros, através da enfermidade e do sofrimento, visam recuperar o carinho dos pais. Assim, dores reumáticas e cefaléias tendem a protegê-los dos ataques de asma. Nos casos crônicos, o ataque é o instrumento por meio do qual o doente, principalmente criança, garante o amor materno.

Quero assinalar ainda que a tentação sexual, mais que a gratificação, é causa desencadeante do ataque de asma.

Baseando-me nos conceitos expostos, suponho que os ataques de asma brônquica, como outros males agudos, são precipitados por vivências traumáticas, nas quais o Ego se vê subitamente assoberbado por um conflito ante o qual se encontra ao desamparo.

Configurando agora o problema em termos de psicologia profunda, tentarei reduzir tudo que foi dito a uma fórmula: A asma brônquica seria o corolário, no nível somático, de um conflito recorrente entre um desejo inconsciente e uma inibição inconsciente. Esta fórmula condensa os aspectos tópico, estrutural, dinâmico, econômico e regressivo do conflito em apreciação.

Analisemos a fórmula:

Na expressão "conflito inconsciente" está contido já o aspecto tópico, isto é, significa que a luta de forças em contradição se estabelece fora do alcance da consciência. Estrutural - porque quando falamos em conflito inconsciente estamos implicitamente nos referindo à natureza neurótica do conflito e à intervenção das instâncias da personalidade: Id, Ego e Superego. Dinâmico - para caracterizar as interações e oposições de energias psíquicas em jogo, algumas de origem biológica, como as sexuais e as agressivas, e outras de origem social, com as éticas. Econômico - para destacar as quantidades de energias presentes no conflito. Regressivo - porque indica a fixação do indivíduo a raízes infantis e pela natureza pré-verbal da exteriorização do conflito.

Quero deixar bem claro que todas estas considerações e hipóteses de trabalho e de conduta terapêutica cabem somente quando conceituamos a asma brônquica estritamente do ponto de vista da psicologia profunda, fundamentando todos estes raciocínios teóricos no material obtido através do método psicanalítico. Isto significa que, fora da situação analítica, na anamnese clínica comum, os dados colhidos não coincidirão com o sentido dos aqui expostos.

Por outro lado, convém ressaltar, nesta oportunidade, que em nenhum momento a psicanálise pretendeu dar explicações puramente psicológicas a todas as doenças, como também nunca atribuiu os distúrbios psiconeuróticos em geral unicamente a desordens da sexualidade.

No caso particular da asma, penso que, sem dispensar de maneira nenhuma os tratamentos medicamentosos dos fenômenos agudos, nem o profilático com base nos conhecimentos atuais das reações alérgicas e suas motivações, penso que esses pacientes poderão beneficiar-se com a psicanálise, mediante a compreensão profunda das atitudes geradoras de ansiedade e das defesas inconscientes que se opõem à descarga emocional. Uma análise bem sucedida leva a modificações básicas da personalidade, com reflexos, incontestáveis, nas regulações fisiológicas.


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